Sou Normal?

Sou normal? Esta é a pergunta mais ouvida em consultório de psicoterapias em geral.

Para podermos lidar com este panorama de diversidades, estabeleceu-se a necessidade de se pensar na conformação estatística. Usa-se a curva de Gaus para se desenvolver padrões de igualdades. Sou igual se estou inserido no quadrante onde resida o maior número de pessoas que pensam ou agem de determinado padrão ou norma. Aqueles que se encontram nas extremidades da Curva de Gauss, são minorias e por isso são considerados diferentes. Fica a pergunta: diferente do quê?

Este trabalho pretende contribuir com um diálogo sobre as percepções e posturas acerca da “Normalidade”, enquanto conceito e convenção social. Para isso, é indispensável situar a percepção do normal em situações distintas – como suas relações com as leis, expectativas, escolhas e conseqüências,  destacando, inclusive, a existência de catástrofes/ fatalidades,  que interferem  nas atitudes tomadas num dado momento.

O título que remonta tanto aos espantos, quanto aos embates cotidianos para adequar-se a supostas  normas gerais, é um estímulo à reflexão. Um convite à pausa, ou pelo menos à desaceleração do raciocínio imediatista que permeia o mundo atual.

Confrontar-se com a normalidade é uma postura de observação, de ação e reação entre aqueles que aceitam encará-la conscientemente e o grupo escolhido como referência.

NORMAL? Ansiamos Pertencer!

Estamos imersos no desenvolvimento de uma cultura pelo normal: em “ser” normal e em “pertencer”.

“Ser diferente, de alguma forma, é uma transgressão à busca do ser normal.”

Angustiamos-nos com a possibilidade de não fazermos parte de um grupo ou de uma forma de pensar.

ANSIAMOS PERTENCER.

Buscamos a individualidade, mas também queremos pertencer. Que fenômeno é este? Tendo à rebeldia em relação ao que é normal, mas nos pautamos em normas nas manifestações destas rebeldias ou escolhas. Ansiamos que nos percebam como único, mas ao nos manifestar-mos, tememos que nos julguem anormais. Para tanto, procura-se atender expectativas previamente intuídas ou imaginadas, padrões que possam estabelecer condutas ideais e de normas que permeiam relações sem que sejam afirmadas e validadas.

Todos, de alguma forma, nos aproximamos e nos distanciamos dos padrões que se considera normal. Mas, aqueles que de certa forma se distanciam muito dos padrões são considerados loucos, inadequados, diferentes, excêntricos e outros adjetivos.

Mas porque esta preocupação muitas vezes exagerada em ser normal? Acredito para que não deixe de pertencer. A idéia de normal agrega pessoas como pertencentes a um clube, Ser diferente é não ter as condições de pertencer a tal clube, classe, casta ou irmandade. Tememos não pertencer e por isso encarar definitivamente a solidão imanente: a característica humana que se confunde com a própria essência do humano.

Tememos ter determinada característica humana na forma estereotipada e sem controle. Tememos perder a razão, em sermos passionais e apresentarmos comportamentos considerados bizarros.

Considera-se loucura todo e qualquer movimento da percepção e da conduta humana sem controle da razão (como se a razão pudesse ter controles das emoções sentimentos ou mesmo das reações naturais e instintivas frente ao inusitado).

Se observarmos atentamente no que consideramos doenças mentais, encontraremos comportamentos e formas de reflexão, sentimentos e reações de características puramente humanas. O medo que sentimos por estas doenças é de que nos identificamos com os esquizofrênicos, depressivos, psicopatas e outros. Consideramos doença tudo aquilo que foge de um padrão considerado natural bem como o que não apresenta equilíbrio e controle. Por isso, todas as vezes em que me sinto “diferente” na minha forma de pensar ou de ser no meio em que vivo, temo ser considerado “louco”, com a possibilidade da exclusão deste meio.

Precisamos de referências para nos balizar em nossas ações, em nosso existir. Precisamos de parâmetros inclusive para poder ter o espírito crítico e uma ordem racional. Tememos sermos traídos por nos mesmos quando em interação nestas mesmas referências.

Quando estamos procurando tornar o que é do outro minha referência, posso estar traindo a minha forma de ser e de existir.

Normalidade e Transgressão

Tudo é Normal.

Andando em um ônibus – transporte público – à noite, ao passar por uma avenida da cidade, famosa pela freqüência de homossexuais travestidos, encontramos um homossexual com os seios de silicone à mostra, vestindo somente uma calcinha de modelo “fio dental” em plena performance. O cobrador do ônibus e eu, juntamente com os outros passageiros, fomos surpreendidos pelo que se transformou em risos e risos e comentários [?]. Neste momento, o cobrador, em um surto de sabedoria popular respondeu a uma pergunta não feita:

“Normal? Tudo agora é normal! Desde que inventaram a palavra normal tudo o que acontece tornou-se normal! Uma bicha de fio dental, uma criança morrendo de fome, um bandido assaltando e matando, morrer de bala perdida, político corrupto, tudo é normal… Sou do nordeste e não conhecia a palavra normal e nem o que ela significava. Soube o que era normal assim que cheguei aqui, mas continuo não achando isso tudo normal.”

Estamos entrando em uma situação de banalização dos fenômenos, da violência, do roubo instituído, generalizado como normal.

A banalidade acorre do número de incidências e de propagação de um fato, ocorrendo o comportamento de não se indignar ou de “acostumar-se” com estes fenômenos, que na realidade são transgressões da normalidade ou das normas vigentes.

O aumento das incidências destas transgressões e a persistência da mídia em valorizá-las em sua divulgação, geram comportamentos de medos exagerados em viver ou mesmo a diminuição da indignação devido ao bombardeamento – o “fermento” destes episódios de transgressão às normas.

Esta valorização da transgressão desenvolve um sentimento de desamparo, de impotência e a sensação de se sentir refém desta própria transgressão.

Normalidade e Liberdade

SER NORMAL E SER LIVRE

Ser normal é ser livre. E uma das características que distinguem o homem entre os animais é a consciência daquilo que chamamos de liberdade. Mas, se também falei de nossa unicidade, cabe aqui uma reflexão importante: preciso de outro para me reconhecer. Preciso da relação com outro para me conhecer, mesmo que o outro seja uma árvore ou um cão. Preciso desse “outro” para me reconhecer e estar em equilíbrio.

Quando tenho essa diferenciação e me percebo único, percebo também a minha liberdade, porque sou exatamente o que quero ser e mais nada. Porém, de alguma forma, sempre dependemos do outro, mesmo na liberdade, pois a liberdade implica em assumir responsabilidade sobre meus atos. Isso, ao mesmo tempo em que me aproxima, me afasta de todos, pois me torno solitário.

Normalidade e Diversidade

A DIVERSIDADE

Não existe dois seres humanos iguais, desde a forma de pensar e perceber o mundo, tanto quanto na sua formação e constituição física. Mesmo em gêmeos idênticos, são notadas diferenças importantes. Todos os indivíduos são diferentes, mas se aproximam.

Interessante que neste universo de diferenças e de unidades procuramos estabelecer padrões de normalidades nas formas de se ver e perceber os fenômenos.

Estamos ainda aprendendo a conviver com a diversidade. E temos muito a percorrer. Durante muito tempo pregou-se a crença de que somos todos iguais. As religiões ainda propagam esta idéia. Porém, o único elemento que nos iguala é do de somos pertencentes à categoria de humanos. A partir deste ponto podemos tudo nos diferencia. Somos diferentes em si, mas nem sempre nos consideramos especiais por esta diferenciação.

Léo Baroni

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