O Encontro na Psicoterapia

A eficácia das terapias da fala, quer no seu início ou nos encontros posteriores, independente da longevidade destes encontros, está intimamente vinculada à autenticidade e intensidade do relacionamento empático encontrado na relação dos envolvidos nestes encontros. Pacheter vincula a eficácia terapêutica destes encontros à qualidade da interseção que o filósofo clínico consegue estabelecer nos encontros com o partilhante.

Quem já passou por processos terapêuticos da fala, passa pela experiência de estar envolvido em uma aura terapêutica que não consegue explicar. Esta sensação parece nos levar à algo que vai além dos próprios encontros ou mesmo do que se é dito. Este encontro com o outro, juntamente com os diálogos desenvolvidos, surtem efeito maior do que o que foi literalmente dito. Fica uma sensação de estar participando de um fenômeno que nos escapa ao intelecto, beirando o conceito de milagre.

Confesso que este fenômeno foi, por muito tempo, objeto de minhas reflexões, mas sem grandes avanços. Como posso mudar-me somente através do encontro com o outro, através do diálogo que travei com o mesmo, mesmo que este diálogo seja muitas vezes um monólogo, enquanto que desenvolvendo o mesmo diálogo comigo mesmo, às vezes com profundidade aparentemente maior, aplicando técnicas mirabolantes de eficácia anunciada por outros, não obtenho o mesmo resultado: ganho consciência intelectual mas sem a transformação pessoal.

Quando reli o livro “Eu e Tu” de Martin Buber a alguns anos, muitas das minhas reflexões anteriores tiveram respostas. Os termos tais como “encontro”, “diálogo”, “presença” e “amor” tomaram dimensões diferentes às que tinha e tive a constatação da presença” nos fenômenos dos encontros. Percebi que nos processos terapêuticos, quando na postura de terapêuta, o “encontro” se dava quando estava em silêncio pleno. Me é estranho tentar colocar em palavras este estado, pois não há palavras. Elas ali estão, no diálogo, porém, o silêncio supera-as, ficando o outro de forma plena. Tudo à volta se transforma ou dissipa-se, tempo, lugar, sons, iluminação, cheiros, enfim, a percepção sensorial dissipa-se, restando a presença. O mesmo sentimento encontro quando estou envolvido por algo ou alguém pelos quais estou “apaixonado”: um livro interessante, na fabricação e confecção de jóias, ao fazer as minhas caminhadas diárias,  ao amar minha esposa, a lista de citações é enorme mas quero fazer menção à minha paixão pela própria filosofia e psicologia que muitas vezes interferem negativamente nos “encontros terapêutico”, póis quando esta paixão se manifesta no processo terapêutico, o outro torna-se “um objeto de estudos ou de referência”, aniquilando-se assim  a “magia transformadora do diálogo terapêutico”, transformando a sessão terapêutica em sessão pedagógica ou de embates teóricos.

Não excluo a importância da existência de diálogos explicativos ou mesmo de caráter puramente profilático nas sessões terapêuticas, sobretudo quando elas estão fundamentadas em um contexto estratégico, me refiro quando às vezes que ocorre esta transformação em decorrência à uma intervenção passional, transformando o “diálogógico” em “monólogico” (à luz do pensamento de Buber).

Para Buber o homem é relação e dual. Dependendo da intencionalidade da relação ele se comportará de acordo com as palavras princípios desta intenção: EU-TU ou EU-ISSO.

Buber usou os termos diálogo, relação essencial e encontro para descrever o fenômeno da relação. Newton Aquiles Von Zuben assim define estes termos de Buber na Introdução de “EU e TU”: “…encontro e relação não são a mesma coisa. O encontro é algo atual, um evento que acontece atualmente. A relação engloba o encontro. Ela abre a possibilidade da latência; ela possibilita em encontro dialógico sempre novo. Mesmo durante o relacionamento Eu-Isso o homem guardaria a possibilidade de uma nova relação”…”O dialógico é para Buber a forma explicativa do fenômeno do inter-humano. Inter-humano implica a presença ao evento de encontro mútuo. Presença significa presentificar e ser presentificado. Reciprocidade é a marca definitiva da atualização do fenômeno da relação. O “entre” é assim considerado como a categoria ontológica onde é possível a aceitação e a confirmação ontológica dos pólos envolvidos no evento da relação.” (“EU e TU”, Buber, Martin, in Introduçãode Von Zuben, Newton Aquiles , 10ª edição, 3ª Reimpressão,  Centáuro Editora, 2009, São Paulo, SP., pp34).

3 comentários sobre “O Encontro na Psicoterapia

  1. hoje eu sinto falta da terapia, mas não encontro forças para voltar, tenho medo parece que ficou escuro e é mais seguro assim sem questionamentos sem tentar entender o que se passa dentro de mim. Fui para o outro lado do mundo e não encontrei o que tanto procuro, foi divertido sim, mas teve momentos que não parecia eu. Ficava um distanciamento. Sei lá acho que estou pirando de vez rsss..A Thays(minha sobrinha) disse antes de eu ir, vc nao sera mais a mesma pessoa.Todas as experiências nos transformam. Que bom a madurecimento faz parte da arte de envelhecer. E tem dias que me sinto tão jovem e outros tão velha enfim viver e muito intenso..

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